em 04/05/201
Durval
revelou em seus depoimentos que pediu autorização a Joaquim Roriz antes
de começar a operar para José Roberto Arruda. Na época, Roriz era
aliado do então deputado que tentaria sucedê-lo no governo do Distrito
Federal.
Desde
que Durval assumiu a presidência da Companhia de Desenvolvimento do
Planalto (Codeplan), em 1999, ele já começou a operar o esquema de
desvio. Com a mesma metodologia que foi desvendada na Operação Caixa de
Pandora. Com uma desenvoltura que muitas vezes espantava a Alessandra e
seus colegas do Ministério Público, Durval aceitava dispensar
licitações e criar outras situações irregulares.
Sua
característica, diz Alessandra, era ter “coragem” de pôr sua assinatura
em contratos claramente ilícitos. Talvez com a convicção de que tamanho
desassombro com a corrupção o manteria sempre absolutamente necessário
e o protegeria. Operador no governo Roriz, Durval manteve-se operador
no governo Arruda. É assim que Alessandra o define na terceira parte da
entrevista exclusiva que concedeu ao Congresso em Foco.
Como a senhora classificaria a figura de Durval Barbosa no
esquema? Desde quando ele era responsável por essas operações de
captação de recursos irregulares junto a empresas que prestavam
serviços para o GDF? Ele já agia dessa forma antes de começar a fazer
esse serviço para o Arruda?
Não
tenho dúvidas de que sempre fez. Em 1999, quando ele assumiu a
Codeplan, já houve imediatamente uma grande reformulação na empresa. Um
remanejamento total de servidores. Já foram firmados os primeiros
contratos no formato usado pelo esquema. Salvo engano, a primeira ação
que tivemos na Promotoria do Patrimônio Público foi um contrato da
Codeplan com a Polícia Civil, em que se
dispensava licitação para comprar softwares. Esses softwares existiam
no mercado, a licitação era possível, e com a dispensa a Codeplan pagou
mais caro. Um momento em que fica muito clara a característica da ação
de Durval é no vídeo em que ele conversa com a empresária Cristina
Bonner, em que ela fica chocada com a conversa [Cristina Bonner é dona
da empresa de informática TBA, uma das empresas que Durval acusa de
pagar propina ao esquema]. Ela diz, sem acreditar: "Como é que você vai
conseguir aí a dispensa da licitação?" Então, a característica era ter
coragem de botar a assinatura em contratos tão absurdos que
surpreendem. Um certo nível de inconsequência que é, inclusive,
comentado pelos colegas. Então, eu acredito que não foi por acaso. E,
além disso, ele não teria condição de repassar tudo para o Arruda sem
permissão superior.
Há mesmo um trecho do inquérito em que ele narra isso, não é? Que, procurado pelo Arruda, ele só poderia passar a ajudá-lo se tivesse a autorização do então governador Joaquim Roriz...
Exatamente.
Ele operava um orçamento milionário. Quando nós conseguimos fechar as
portas do Instituto Candango de Solidariedade, que já lidava com
algumas das mesmas empresas envolvidas agora, como a Linknet, todos
esses contratos migraram para serem feitos diretamente pela Codeplan.
Então, o dinheiro que circulava no ICS, que era um dinheiro absurdo,
depois que passou a não ser mais possível isso ser operado ali no
Instituto Candango de Solidariedade, ele assumiu o esquema para si.
Acho que ele se expunha porque tinha a expectativa de que sempre teria
proteção. A atitude dele era tão fora dos parâmetros normais que ele
achava que seria poupado de qualquer medida. Quando ele viu que a coisa
não seria assim, ele se desesperou e resolveu que não ia levar a culpa
de tudo aquilo sozinho.
Então, era um operador do esquema no governo Roriz, e continuou sendo um operador no governo Arruda?
A minha concepção é de que é isso, sim.
Rudolfo Lago é editor de política do jornal Correio Braziliens
fonte: Congresso em foco